08 dezembro 2010

WILLIAM SHAKESPEARE E SEUS ATOS DRAMÁTICOS
Cris Compagnoni dos Reis15:35 1 comentários

Antes de qualquer coisa, preciso confessar: nunca li nenhuma obra de Shakespeare, salvo alguns sonetos, o que conheço da sua produção literária é de adaptações para o cinema, algumas aulas no meu tempo de escola, e até de conversas informais. Mas depois de ler este livro sinto uma necessidade urgente de ler todas as obras desse cara.

Apesar da minha curiosidade em ler Shakespeare, sempre fui barrada pelo formato de suas obras, para mim a leitura de peças teatrais é extremamente cansativa e confusa, não que eu não goste de teatro, por que eu adoro, mas sou o público, assisto; já que é essa a minha função nesse contexto.

WILLIAM SHAKESPEARE E SEUS ATOS DRAMÁTICOS é uma biografia do mais famoso dramaturgo de todos os tempos, só que está não é só mais uma, é “a biografia” de William Shakespeare. O livro é da Coleção Mortos de Fama, (a mesma do livro ISAAC NEWTON E SUA MAÇÃ, já postado no blog) e se mantém fiel à idéia da coleção que é contar a vida daqueles que são famosos de morrer de uma forma pra lá de divertida.

Uma biografia comum poderia simplesmente dizer que Shakespeare tinha a letra feia, mas nesta Andrew Donkin contou isso afirmando que certas vezes se tinha a impressão de que o dramaturgo mergulhava as pernas de uma aranha na tinta e a colocava para correr no papel. E as ilustrações de Clive Goddard dão um toque especial deixando a leitura ainda mais divertida.


Eu já sabia que Shakespeare escreveu muitas peças, poemas e sonetos; sabia manejar as palavras como poucos; criou os personagens mais famosos do teatro; e sua obra continua sendo atual. Mas descobri nessa leitura que ele sumiu por sete anos, seus biógrafos chamam esse período de “anos perdidos”, ninguém sabe o que fez ou onde esteve, existem muitas teorias a esse respeito.

Suas peças são divididas em praticamente três estilos: as comédias que, sempre têm um final feliz, como Sonho de uma noite de verão, por exemplo; as tragédias em que quase todos os personagens morrem no final como Hamelet e Romeu e Julieta; e as histórias que são sempre fatos históricos, em sua maioria sobre algum rei mas sempre sobre a nobreza, só que para torna-las mais interessante, nem sempre Will seguia a história ao pé da letra, como em Ricardo III ou Henrique IV por exemplo.

Por falar em “Will” essa é outra característica da leitura que adorei, o autor sempre se refere a William Shakespeare dessa forma, como se fosse íntimo do cara. E não é só com ele, em muitas passagens do livro é citada a Rainha Elizabeth, aquela que é conhecida como “Rainha Virgem”, que não teve herdeiros; só que ela aparece sob o carinhoso apelido de Liza, achei genial.

Bom, Liza gostava muito das peças do Will, mas teve um nobre que queria a coroa par si e usou o dramaturgo para uma de suas tramóias, e foi por pouco que ele não teve a cabeça cortada pela rainha. Outra confusão em que Shakespeare se meteu boi o roubo de um teatro, isso mesmo, ele roubou um teatro inteirinho.

Agora se tem uma coisa que me impressionou neste livro são esses números: 25 mil foi o número de palavras diferentes que William usou nas suas peças e poemas, sendo que um livro têm em média 6 mil palavras e a maioria dos autores usam as mesmas palavras em outras obras. Dessas 25 mil palavras suspeita-se que 2 mil foram criadas por ele, pois não aparecem em nenhum registro escrito anterior a sua obra. Isso que é um vocabulário amplo!

Mas Shakespeare também cometeu algumas mancadas, veja:
  • Na peça Antônio e Cleópatra há uma cena em que a Rainha do Egito convida Antônio para uma partida de bilhar, jogo que só foi inventado dois mil anos após os tempos de Cleópatra;
  • Na peça Júlio César há uma cena em que um relógio soa dramaticamente, só que não existia relógio na Roma Antiga;
  • Em Conto de inverno tem uma cena em que um personagem vai ao litoral selvagem da Boêmia e é perseguido e comido por um urso. A Boêmia (que corresponde a atual República Tcheca) tem urso mas não tem mar;
  • E em Rei Lear um personagem diz que precisa tirar os óculos para ler uma carta que recebe do filho, só que não existia óculos na Grã-Bretanha antiga, que é onde se passa a peça.

Como se pode ver nem tudo são flores, mas os feitos de William Shakespeare foram tão grandiosos que as suas “gafes” ficaram praticamente ocultas na história. Hoje ele é visto como um dos maiores escritores de todos os tempos, o autor que emplacou o maior número de versões das suas histórias em Hollywood, poemas que viraram músicas, sem contar a infinidade de vezes que suas peças foram encenadas, e elas continuam sendo atuais.


Também foram muitas as releituras das obras de Shakespeare, e uma em especial me chocou; sempre achei genial na peça (que virou micro-série e depois filme) O AUTO DA COMPADECIDA do Ariano Suassuna a cena em que o Chicó tem que pagar ao pai da Rosinha uma tira do seu próprio couro, e o esperto João Grilo sai em defesa do amigo dizendo que no contrato só existe couro e não sangue, sendo assim o fazendeiro só poderá retirar o seu pedaço de couro se não derramar nenhuma gota de sangue. Adoro as histórias de Suassuna, mas descobri que a cena pela qual eu mais o admirava é inspirada na peça Dois mecadores de Veneza, e adivinhem que a escreveu?

Depois de tudo isso é impossível não ter vontade de ler WILLIAM SHAKESPEARE E SEUS ATOS DRAMÁTICOS, isso que nem falei nada sobre as gargalhadas que soltei durante a leitura, rir é sempre bom de mais. Mas para encerrar mais uma curiosidade: esse morto de fama foi parar até no espaço, pois das vinte luas do planeta Urano, quinze foram batizadas com nomes dos seus personagens. É, dizer que o cara era bom é pouco!
Sobre o autor (a) Formada em Matemática e especialista em Estatística mas ganha a vida como bibliotecária e é viciada em livros. Facebook ou Twitter

Um comentário :

  1. gostei muito do que falou sobre William shakespeare. Me deu curiosidade de ler obras dele.

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